Cinema da Depressão

JOSÉ ALFREDO

Filme & Depressão 01

Bem pessoal, não vou ficar me demorando em explicações do por que do meu sumiço, mas digamos que o universo está sempre contra mim quando planejo algo com antecedência. Indo contra ele (talvez seja por isso que acabo o irritando), resolvi falar sobre o estranho acontecimento que tive domingo passado.

Estou na missão de assistir todos os filmes que participaram do Oscar desse ano e nesse domingo estava com o ânimo e presença de espírito para assistir “A Feiticeira da Guerra”. Sei que o filme é pesado e bem trágico e…ele se provou mais pesado e trágico do que esperava.

Filme & Depressão 02

A história é sobre uma garota de 11 anos que vê sua vila e seus pais serem chacinados por um grupo rebelde enquanto ela é seqüestrada e obrigada a se tornar bucha de canhão para eles. Todavia, entre os combates, ela é considerada uma feiticeira por ter a capacidade de prever onde os conflitos irão aparecer (basicamente avisada pelos mortos que ela vê próximos aos locais). A jornada percorre 3 anos da vida dela e é narrada pela  mesma, mas como se fosse uma conversa com seu filho que ainda não nascera, fruto de um estupro por um dos seus comandantes.

O filme trata com tanta crueza e amargura não apenas a história dela, mas a de todos que estão envolvidos nessa guerra civil de uma forma tão crível que poderia (ou infeliz foi) ser considerado como a realidade lá na África.

Há raros e poucos momentos de luz e alegria na vida da jovem Komona e quando aparecem servem apenas para serem roubados para tornar sua vida mais triste e miserável.

É de fato um filme para poucos, mas é uma ótima obra de arte que explora muito o emocional do telespectador.

Filme & Depressão 03

Enfim, após o filme eu senti que precisava de um pouco de boçalidade, adrenalina e um pouco de sexo hardcore e como bom nerd cinéfilo resolvi assistir a uns episódios de Spartacus, pois logo pretendia assistir a outro filme que poderia ser “Django Livre” ou como uma amiga sugeriu “Indomável Sonhadora” indo contra ao que pretendia, porém eu também estava curioso quanto ao filme, mas como a internet é uma droga maldita acabei me deixando levar por tempo demais.

Estava para ir dormir e desligar a TV que estava debilmente ligada pelo dia inteiro sem ninguém lhe dar a devida atenção quando vejo iniciar no Domingo Maior da Globo um filme de Jackie Chan com o sugestivo nome de “Massacre no Bairo Chinês”. Os mais entusiastas logo de cara devem se lembrar daquele filme de 1991 com o Dolph Lundgreen e Brandon Lee chamado “Massacre no Bairro Japonês”. Então, pensei que seria mais um filme de pancadaria típica do Jackie e fiquei pra assistir ao menos a 1ª parte dele.

Filme & Depressão 04

Ao ler a sinopse a ficha ainda não tinha caído ao ver que o filme se tratava de um imigrante ilegal chinês que viera ao Japão para encontrar com sua namorada que também havia entrado ilegalmente no passado. Ao se encontrar com ela, descobre que esta já se encontra casada com um dos comandantes da Yakuza. Para agravar a situação, ele acaba se tornando um assassino deste cara.

Ah, já vou avisando que haverá spoilers (mesmo que eu os odeie) e alguns são bem agressivos.

Eu ainda estava vendo o filme meio que em segundo plano enquanto terminava de ler umas matérias de jogos na net, quando vejo na tela um policial chegando na praia alarmado por ver um barco tombado nela. Logo enquanto ele se aproxima, vê várias pessoas nadando e chegando à praia. Surpreso, ele saca sua arma e aponta para os clandestinos exigindo que todos fiquem parados. Uma atitude tola, já que eles estão em dezenas e ele é apenas um. Devido a isso todos os chineses começam a fugir enquanto 2 deles avançam contra o policial e começam a brigar e acabam matando o policial. Não reparei direito, mas parece que quem matou foi o Jackie. A ficha só caiu muito tempo depois, pois era a primeira vez que tinha visto um filme dele em que ele mata alguém intencionalmente.

Dali em diante, ele e seus “irmãos” tentam viver do melhor jeito que podem em Tóquio, especificamente no distrito de Shinjuku e como Jackie diz no decorrer do filme, trabalhando em empregos que ninguém gostaria de fazer (manutenção de esgotos, lixeiros e afins). O período em que o filme ocorre é quando estava havendo uma grande imigração de chineses ao Japão e há um enorme preconceito dos nativos para com os chineses.

Então, enquanto ele vai tentando começar uma vida lá e futuramente obter uma cidadania, seus “irmãos” sempre vão lhe apresentando jeitinhos para se dar bem e ele sempre fazendo questão em dizer que aquilo era errado. Bem típico dos filmes dele.

Até que um dia ele descobre da situação da sua namorada (e agora ex) estar casada com um líder da máfia local.

É interessante destacar que no decorrer do filme ele encontra e fica com uma mulher bem mais gata, mas ele ainda mantém um certo interesse pela ex.

Filme & Depressão 05

Algo que muda o panorama de tudo que vi nos filmes dele é de uma cena em que o amigo dele é torturado por membros da Yakuza pra revelar algum tipo de informação que eu não estava prestando atenção na hora. Talvez fosse por ele estar trabalhando ali numa tendinha que vende castanhas (presente recebido por ele dias antes pelo Jackie e amigos de aniversário) sem ter o aval da máfia ou eles queriam saber quem é que mandava nos chineses naquela área. Sei lá, a questão é que após retalharem o rosto dele (com requinte nos detalhes), enfiaram a mão dele na panela de castanhas quentes e enquanto ele urrava de dor, o líder da gangue pegou uma espátula para mexer nas castanhas e decepou a mão do coitado. Em seguida chegaram Jackie e seus amigos e ao presenciarem a situação e a impotência deles com o grupo da Yakuza apenas exigiram que eles entregassem seu amigo que prontamente é jogado para eles. Depois eles pedem a mão e lentamente o líder tira a mão da panela com ela já meio queimada. Ele a joga no chão e começa a pisá-la até ficar completamente acabada. Os chineses vão embora tristes pelo que aconteceu e para levarem o rapaz ao hospital.

Nesse momento minha cabeça já havia explodido e comecei a prestar totalmente atenção ao filme.

Depois daquilo, os chineses queriam vingança e Jackie se prontificou de fazê-lo. Ele emboscaria o líder da gangue e o mataria quando ele saísse de um restaurante. A ironia foi que houve uma discussão entre seu alvo com outro líder da Yakuza e este era justamente o marido da sua ex namorada. Capangas foram contra ele para matá-lo e não tendo escolha Jackie apareceu pra ajudá-lo a fugir, não antes de arrancar à espadada meio braço do maldito que feriu seu amigo.

Dali em diante, por tê-lo salvado, Eguchi (o marido) viu o potencial de explorar Jackie e mais a frente o chamou para matar outros líderes para tomar o poder. Jackie só aceita o emprego após exigir que lhe arranjem um visto de cidadania e que a região de Shinjuku onde vivem os chineses ficassem sob controle dele. O pedido foi aceito.

Filme & Depressão 06

Ah, só pra ficar claro, neste filme não há cenas de artes marciais nenhuma. Jackie quando tá lutando com alguém é usando arma de fogo ou briga franca mesmo. De soco torto e tudo mais.

O tempo passa e sua força e influência no distrito começam a crescer e enquanto isso chama a atenção de outros líderes da Yakuza de Tóquio, começa a corromper também os “irmãos” de Jackie. Tráfico de drogas, vandalismo, mortes…

O filme é ótimo e altamente recomendável, mas já deixo claro que é de um drama trágico e que se baseia num contexto bem realista, não apenas lá, mas em qualquer lugar onde é comum imigração ilegal e como essas pessoas têm que se relacionar na sociedade.O final (já pra não dizer todo o filme) é tão surreal pra quem curte os trabalhos do Jackie Chan, que você nem sabe como reagir após vê-lo.

Fui dormir, no meio da madrugada, deprimido, mas impressionado como bons filmes podem vir dos locais mais inusitados.

Filme & Depressão 07

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