Quando a Interpretação Influencia na Aventura?

POR JOSÉ ALFREDO

Pressupõe-se que numa aventura de RPG haja de interpretação por parte dos jogadores. Ora bolas, RPG significa isso, um jogo de interpretação de personagens. Mas quando, em sua mesa de jogo, a interpretação fora parte essencial e decisiva em suas ações e não meramente apenas uma forma de se relacionar entre as personagens da aventura: tanto as dos outros jogadores quanto aos dos NPC’s do narrador?

Pergunto isso, pois há 1 semana aconteceu uma situação inusitada em minha mesa de jogo. Estava parte do nosso grupo composto por meu amigo (um ranger caçador de criaturas), o NPC (um guerreiro bárbaro), eu (também um ranger) e nosso séquito de companheiros animais (uma serpente, um corvo e um grifo) numa espécie de labirinto onde cada cômodo adentrado um certo desafio era proposto. Nesta ocasião, o local aparentava e mostrava requintes orientais pela sua descrição, mas de especial havia uma grande estátua de mármore de um samurai no centro e ao entrarmos no cômodo fomos surpreendidos por ele falando e nos dando ordens. A mim fora dada a ordem de cortar os pulsos, ao NPC de se ajoelhar e para meu amigo de se matar.

Ah claro, esqueci de mencionar que todos viemos de uma região bárbara e mais primitiva do mundo (mesmo que já ficasse meio claro pelas classes das nossas personagens) e nenhum de nós sequer sabe ler ou escrever. Logo, para pessoas como nós era de todo compreensível que sequer saibamos com o que estamos lidando. Não havia lógica alguma termos qualquer conhecimento sobre cultura oriental (no nosso cenário um continente distante). Resumindo, pelo nosso ponto de vista vimos uma sala com muita telha e uma pedra em forma de demônio (as armaduras de um samurai têm a aparência de demônios para intimidar seus inimigos) falando com a gente. Pura bruxaria.

No momento que ouvi o “demônio” me ordenando cortar meus pulsos, meu 1º impulso foi dar um ataque de carga e remover o que ele chamava de cabeça de cima do seu pescoço com meu machado. “Sua bruxaria não tem efeito sobre mim, demônio!!! Ò_ó”

Logo em seguida, vejo a estátua intacta, meu machado trincado e meus pulsos sangrando. De forma intuitiva percebo que havia falhado: tanto no meu ataque quanto na “bruxaria” que havia me acometido.

Meu amigo, que naquele dia estava ausente, teve seu personagem jogado por outro jogador para assim poder me auxiliar na sessão de jogo. Este jogador já tinha mais conhecimento, através de sua própria personagem, de como se lidar nesse labirinto e como solucionar os desafios. Transferindo esse conhecimento para a personagem ranger (isso conhecido como meta-jogo, o qual falarei mais abaixo), este prontamente disse ao NPC para ajoelhar e logo em seguida, com uma faca, cortou a própria garganta se matando. Instantes depois, todos nos encontravam fora do cômodo. Todos nós estávamos incólumes, mas apenas eu havia falhado (e com isso não recebendo um colar que denotava o sucesso do desafio).

Não estou desmerecendo a atitude do outro jogador, até porque ele estava fazendo apenas um favor em jogar com um personagem não familiar e não tinha noção de como interpretar com o ranger do meu amigo.

Enfim, quantas vezes em sua mesa de jogo você viu um jogador ou até você mesmo ou até o próprio narrador se utilizou do meta-jogo para resolver um problema ou se beneficiar com uma situação?

Para quem não sabe, meta-jogo seria como nós Rpgistas chamamos de “iluminar”. Quando o conhecimento que apenas VOCÊ (o jogador) tem e você o transfere para sua personagem como que por mágica ela sempre soubesse. Um exemplo clássico é quando é a primeira vez que seu grupo se encontra com um monstro numa aventura, mas como você já lera suas estatísticas no livro do monstro ou até já enfrentara um em outra aventura, sua personagem saiba exatamente as vulnerabilidades dele.

Já presenciei narradores também praticarem o meta-jogo quando convenientemente aparecem monstros que sempre exploram as principais fraquezas dos jogadores e são resistentes as suas características principais.

Voltando ao tópico base do texto, o quanto você se dedica na interpretação da sua personagem? Quando você elabora o background você se preocupa com ele em si ou apenas o utiliza como pretexto na criação da personagem?

Durante todos esses anos jogando RPG já interpretei vários tipos de personagens, desde magos orientais mudos a fervorosos guerreiros clérigos árabes. Todos eles sempre tiveram um background (mesmo que eu não tenha escrito ou dito ao mestre, sempre tinha em mente isso quando os interpretava) e quando os interpreto sempre tento deixar evidentes suas peculiaridades, trejeitos, posturas e tudo o mais. Às vezes fico desapontado comigo mesmo quando não o interpreto de forma convincente, mas fico desapontado ainda mais (porém dessa vez não comigo) quando vejo outros jogadores não enxergarem isso e tratarem minhas personagens como se estivessem falando comigo (o jogador e pessoa). Em situações como essa tento deixar o narrador a par que minhas ações são provenientes da minha interpretação. No fim, quem avaliará e dará a experiência será ele.

Uma vez disse para meu narrador que se for pra ficar rolando dados e jogar feito uma Maria-vai-com-as-outras, agindo como se estivesse seguindo um roteiro nem perderia meu tempo pra sair de casa para jogar, pois poderia o fazê-lo através de um telefone.

O diferencial do RPG é a interpretação. Eu adoro rolar dados, descer a porrada em monstros imaginários (não, não preciso de um psicólogo), mas se ele se resumir a isso, o RPG será apenas um jogo de tabuleiro. Ninguém precisa ser o Dustin Hoffman da interpretação (é claro que ser o Ricardo Macchi também já é demais), mas se esforçar um pouquinho para ter uma interpretação convincente não machuca ou você prefere que aquele seu personagem que você jogou por 2 anos seja conhecido como “aquele com espadão vorpal apelão”?

7 comentários em “Quando a Interpretação Influencia na Aventura?”

  1. Meu Caro, gostei do Artigo !!

    Pois bem, o RPG, como em tudo na vida, precisa de tempo, de experiencia, claro que como na vida, tem gente que passa por um monte de coisas e não aprende nada, e de nada serve o XP adquirido rsrsrsr !!

    Mas o certo, é que com o tempo, e amadurecimento dos Jogadores, Narradores, esse ponto da interpretação vença, e que os jogadores e narradores, fiquem ligados nesta questão do seguir a linha de “raciocínio” do personagem ou NPC.

    Não é possível para um Anão bárbaro, jovem, saber como funciona os segredos de se defender de uma magia necromante poderosa, ou de um neófito Brujah da Camarila, saber as fraquezas de um Lasombra experiente do Saba, só por que seu Jogador sabe.

    Com o amadurecimento, ou em alguns casos, quando um novato joga com um grupo experiente, a linha do conhecimento a pessoa, jogador ou narrador, e do personagem, fica clara, você pode rolar no chão, sabendo como se livrar da armadilha X, mas seu personagem não, então meu caro, caia nela, mas caia com interpretação digna rssrs !!!

    E Jogadores e Narradores, que ainda não fazem isto, por favor, acordem, o jogo fica muito melhor, mais interessante, se respeitarem esta linha !!!

    Abçs

  2. Muito interessante o texto, mesmo eu que sou iniciante na pratica do rpg acharia estranho estar “atuando” (ou melhor vivendo) e um companheiro personagem de baixa experiência já soubesse todas as artimanhas dos desafios encontrados.

    de qq forma parabéns.
    😀

  3. Isso realmente é muito chato. Eu mesmo tenho isso em minha mesa. Preparo um personagem legal, com um histórico diferente, com talentos e equipamentos escolhidos com base no background, pensado em jogar uma campanha que pudesse mostrar como ele é, como pensa, mas na hora da campanha, o que resolve é só causar dano. Perco o interesse logo. Mesma coisa quando estou mestrando. Faço uma campanha que tenha possa usar as habilidades de cada personagem, mas só fazem bárbaros destrutivos e magos incendiários.

    É muito difícil achar um grupo a moda antiga, até porque muitos dos novos jogadores conheceram o RPG por meio dos eletrônicos, e acham que é só fazer uma ficha repleta de combos e sair quebrando o pau que é muito massa.

  4. Meu grupo chama o meta-jogo de “robledagem”, em homenagem a um amigo nosso (Robledo) que SEMPRE praticava esse ato hediondo. Recentemente, evoluiu para “fabagem”, graças a um Fábio que “aprimorou” a técnica. =/

    Também ja me desapontei com interpretações fracas em missões bem-sucedidas de personagens meus. Antes tivesse fodido a porra toda mas ter interpretado direitinho.

    E o que mais me mata são jogadores que tentam usar a mecânica de jogo pra transportar seu conhecimento para seus personagens (a.k.a.: “Mestre, posso rolar um conhecimento X pra saber o que esse monstro é capaz?”). 😛

  5. Excelente tema, Mr. Joseph. Aponto também um outro problema que venho enfrentando no meu grupo atual.

    Após minhas experiências com RPG, percebo que por mais que os jogadores/narradores tenham experiência no assunto, e sejam bons, eles ainda mantém aquela parcialidade nos RPGs.

    É muito ruim quando um narrador beneficia seu amigo jogador, ou quando este aplica uma penalidade no jogador por motivos adversos do que acontece em “ON”. Sem contar quando dois personagens se confrontam, e com isso os jogadores se confrontam, ou um passa a olhar feio para o outro por algo que aconteceu entre os personagens.

    Afinal, poxa… Isso é um -jogo-. Já não basta eu lidar com os jogos de poder dentro do RPG (no meu caso, jogo o Rpg de Game of Thrones), tenho que lidar com eles fora também?

  6. Muito bom artigo Sr. Abel, interpretação é extremamente importante no rpg, pois ajuda a melhor modelar o cenário do mestre e a aumentar o nível da campanha. Infelizmente na nossa cidade, eu não vejo “player” dando tanta importância assim à interpretação e memso alguns deles tendo anos de jogo amioria ainda pensa: “Um personagem forte é bom!” “D&D é um sistema que deve ser jogado no épico ou quase porque não dá para fazer personagem forte assim.” “Jogar com personagem fraco até ele ficar forte é ruim, não precisa se preocupar tanto com interpretação”. E em relação ao estrategista, acho que em alguns casos eles até que são úteis e creio também que todo mundo em algum ponto já foi assim antes de “evoluir”.

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